Lilypie Second Birthday tickers

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terça-feira, agosto 01, 2006

memória

a primeira vez que perdi alguém verdadeiramente importante na minha vida foi aos 13 anos...
foi o meu padrinho, o tio césar...
sem dúvida que era o nosso tio preferido, meu, da Daniela e do Pedro. e eu, sentia-me orgulhosa de, para além de o ter como tio, tê-lo também como padrinho, sentia-me mais especial...
tinha um espírito muito jovem, brincava imenso connosco, era um desportista nato, nunca estava quieto e amava muito a minha madrinha... isso via-se, sem grande esforço nas suas brincadeiras, nas suas cumplicidades...
lembro-me de, aos 4 anos de idade ir passar férias com eles para a Nazaré... foi aí também que ganhei um avô postiço, pai da minha madrinha e que ainda hoje chamo de avô...
quando ainda moravam em Lisboa, recordo-me de ir passar uns dias com eles, de umas vezes ir com a minha madrinha para o hospital e outras com o meu padrinho para a companhia de seguros... adorava, deixavam-me escrever à máquina, tiravam-me cópias de desenhos para eu pintar, enfim, eram sempre umas férias memoráveis...
tenho bem presente o momento em que soube que o meu padrinho ía morrer... a minha madrinha ligou lá para casa e o meu pai atendeu... ligou à minha tia gena para lhe dizer o que estava a acontecer... o irmão mais novo deles, tinha um cancro no fígado e tinha 3 meses de vida... a minha tia não queria acreditar e deste lado o meu pai gritava-lhe a notícia, como se assim fosse mais fácil para ela entender o que não queria aceitar....
tomaram a decisão de não lhe contar nada...
todos os fins-de-semana, os meus pais iam para a Lousã... algumas vezes eu também ia, outras não... na altura tinha jogos ao fim-de-semana e nem sempre podia faltar...
lembro-me da última vez que o vi...
do aspecto físico nem vale a pena falar...
lembro-me dele deitado no sofá acastanhado da minha madrinha, já sem forças e eu, sentada no chão, por baixo... lembro-me do amor que sentia por ele e da urgência que naquele momento tive de lhe dizer, de lhe gritar, o quanto o amava, o quanto ele era importante para mim, como tinha marcado a minha vida... não o fiz... sabia que se o fizesse ele ia perceber que algo se passava... será que não tinha já percebido e vivíamos cada um para o seu lado, uma farsa... um fingimento sem sentido? não lhe disse... calei o meu amor...
foi a última vez que o vi...
num fim-de-semana em que tive a fase final do campeonato nacional de iniciadas femininas, em Coimbra, ganhámos... fomos campeãs... os meus pais estavam na Lousã, a meia-hora dali... telefonei-lhes da cabine telefónica que havia em frente ao Pavilhão do Olivais... atendeu o meu primo Pedro... achei estranho ele estar lá mas não liguei... falei com o meu pai e contei-lhe que tínhamos ganho, éramos campeãs....estava tão feliz...
à tarde, quando me deixaram em casa, o meu irmão estava a brincar na rua ... ainda antes de sair do carro ele perguntou-me:
-"já sabes?"
-"já sei de quê?"
-"do tio césar, morreu"...

o meu chão fugiu, percebi que nunca mais o ia ver... tudo tinha acontecido naquele fim-de-semana e eu não tinha sabido de nada... ninguém me tinha dito... não sei se foi bem ou mal feito, não sei e não me interessa...
carrego ainda hoje o peso de, naquele último momento que tive com ele, não lhe ter dito o quanto o amava, por ter medo que percebesse que algo de errado se passava... como é que pode ser errado dizer a alguém que o amamos, que é muito importante para nós... como é que isso pode parecer estranho?
desde esse dia que não tenho vergonha de dizer às pessoas que me são queridas que as amo, que gosto delas, que gostei de estar com elas, que são lindas, que me são especiais.. bem sei que às vezes, ficam encabuladas mas não me importo...
tento aproveitar esses momentos, tento não perder munca mais a oportunidade de as amar sem medos, de lhos mostrar...
porque,
pode muito bem ser a última vez que o posso fazer!

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